25 de junho de 2019

A estagflação brasileira

Acredito que já podemos afirmar que o Brasil vive uma estagflação.

Uma estagflação é caracterizada por baixo crescimento econômico e alta inflação. Nosso crescimento em 2012 foi vergonhoso, menos de 1%. E a inflação oficial do governo, mesmo com toda maquiagem que ele vem fazendo para forçá-la para baixo, superou o teto da meta de 6,5%. O centro desta meta que é de 4,50% já foi esquecido faz tempo.

O governo tem estimulado o consumo para gerar crescimento econômico. Ele reduz impostos e juros com a intenção de fazer as famílias consumirem.

O Brasil com esta política faz um vôo de galinha. Apresenta um crescimento acelerado que chega a empolgar, mas logo se percebe que foi puro entusiasmo. Infelizmente estes vôos de galinha geram votos, pois engana o eleitor causando uma falsa impressão de melhora econômica.

Eu gosto de fazer uso de analogias para explicar uma situação. Vamos comparar o crescimento de um país com o a melhora da qualidade de vida de um cidadão.

Se uma pessoa ganha R$ 2 mil ela pode programar seu mês de forma a consumir todo seu salário. Pode financiar um carro zero e pagar em parcelas de R$ 650,00. Com mais R$ 350,00 mensais ela abastece este carro e provisiona demais gastos com combustível, revisão, seguro e licenciamento. Com R$ 150,00 ela paga Internet, TV, água e luz. R$ 500,00 são suficientes para alimentação e demais produtos de higiene pessoal e limpeza para a casa. Ainda restam R$ 450,00. Vamos dizer que R$ 150,00 sejam usados para presentes, possíveis manutenções emergenciais no lar e remédios e R$ 300,00 para baladas e roupas.

A situação apresentada foi genérica. Perceba que todo dinheiro recebido está sendo consumido. A pessoa vive uma vida, aos olhos da maioria, financeiramente tranquila. Como não falei de aluguel e plano de saúde, imagine que ela tenha casa própria e a empresa ofereça plano de saúde.

Qual o problema deste modelo?

queda economia A estagflação brasileira

Muito simples. Ele não leva em conta a necessidade de evoluir e possíveis intempéries na jornada. O modelo funciona quando tudo mais se mantém estável. Mas sabemos que a estabilidade é a exceção e o caos a normalidade.

Nossa pessoa fictícia deveria primeiramente ter uma reserva para emergências e também investir parte de sua renda para no mínimo conseguir manter seu padrão atual caso algum imprevisto aconteça: perda do emprego, doença ou acidente. O ideal seria a busca pelo crescimento. Na verdade o crescimento é uma necessidade, pois esta pessoa hoje vive só, mas caso ela resolva constituir família e ter filhos, seu padrão de consumo se reduzirá consideravelmente porque a família cresceu (ou passou a existir) e a renda se manteve estável.

Mais bocas surgiram para serem alimentadas, mas nenhuma riqueza adicional foi criada para sustentar estas novas pessoas.

Evoluir na velocidade do mundo é o mínimo necessário para se manter onde se está. Não avançar não é opção, pois o mundo evolui. Ficar parado é retroceder.

Evoluir numa velocidade mais rápida que o avanço do mundo é o que deve ser feito por aqueles que resolveram constituir família e gerar novas vidas. Gerar um novo ser sem saber como irá prover suas necessidades até o momento que ele seja capaz de caminhar com as próprias pernas é um erro gravíssimo.

Como fazer então?

Deixando de consumir, economizando recursos e investindo.

A imagem inicial aos olhos dos outros será de perda de qualidade de vida. Mas o andar de ônibus e passar a frequentar menos baladas e assim destinar mais recursos para educação e poupança pavimentará o caminho que possibilita a criação de riqueza, e este fruto será colhido no futuro através de um salário maior. Mas aos olhos dos vizinhos algo ruim aconteceu, pois se passou a ostentar menos.

Se esta pessoa que ganha R$ 2 mil que lhe proporciona todo o conforto resolve adiar o consumo de hoje para poder consumir mais no futuro e investir em educação gerando riqueza, provavelmente com o passar dos anos ela estará ganhando o dobro ou o triplo.

Aí ela será capaz de constituir família, pois primeiro ela se preparou para consumir, para somente depois consumir.

Entre o consumo e a preparação para este consumo existe um gap de maturação que aos olhos dos outros se apresentará como perda de qualidade de vida, mas que na verdade é renúncia e austeridade para no futuro poder consumir muito mais e melhor.

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Não existe crescimento sem antes haver renuncia. Temos um trade-off.

Agora voltemos a pensar no Brasil. Para haver crescimento sustentável precisa haver poupança e investimento, que, assim como a pessoa, precisa deixar de consumir. Para o país tal atitude se apresentará como recessão econômica. Mas o fato é que se estará investindo em bens de capital de ordem menos elevada para ser mais produtivo e no futuro se consumir muito mais.

São ciclos econômicos. Consome-se menos, poupa-se e investe para se consumir muito mais no futuro.

O governo não sabe disso?

É claro que sabe, mas não lhe interessa esta política de austeridade/poupança/investimento para se consumir mais e melhor no futuro. E não por uma questão muito simples: ao gerar recessão se perde votos e não se ganha eleição.

A intenção dos políticos não é fazer o país crescer, mas sim manter o status quo vigente. Status este em que eles estão em situação confortável.

A lógica para o crescimento sustentável é simples, mas difícil e dolorosa.

Você que trabalha, estuda e investe sabe disso. É duro estudar após um dia cansativo de trabalho quando todo o Brasil está assistindo novelas. É chato andar de ônibus quando todos os vizinhos estão de carros novos e confortáveis. É duro investir pensando no futuro quando todos estão consumindo desenfreadamente.

Mas no futuro sempre se paga a conta.

No caso do governo a conta quem paga somos todos nós com impostos mais altos para manter a corja toda no poder.

Eles criam voos de galinha imprimindo dinheiro e assim baixando os juros artificialmente. Aí incentivam o consumo parcelado. Tudo fica lindo, mas quem pagará a conta no futuro?

A consequência de uma expansão monetária e consequente consumo sem lastro em poupança é, primeiro, estagflação, e, posteriormente, grande recessão econômica.

Aguardem…

Uma boa semana para você!

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Jônatas Rodrigues da Silva

Administrador na Universidade Federal de São Carlos e professor do Estado de São Paulo no Centro Paula Souza. Autor do livro Método para a Educação Financeira: da Sensibilização à Ação.

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