23 de maio de 2019

Como a redução do juro prejudica a indústria

Hoje quero mostrar como a redução artificial dos juros afeta negativamente a indústria.

A venda de motos teve redução de 20% em 2012. Isto aconteceu basicamente porque o acesso ao crédito ficou mais difícil.

Mas os juros não caíram?

Sim. Mas a redução artificial dos juros imposta pelo governo levou as financeiras a serem mais criteriosas ao concederem crédito, causando uma escassez.

Em geral, quem compra uma moto financiada são as famílias das classes C, D e E. Cidadãos que apresentam maior risco de inadimplência. Os juros menores levam mais pessoas a buscarem o crédito, mas este sonho foi barrado pela análise da capacidade de pagamento mais rigorosa imposta pelas financeiras.

O juro deve ser sempre regulado pela poupança e não imposto por um governo.

Outro problema ao reduzir juro artificialmente é a diminuição do volume de poupança. Isto por alterar a preferência temporal de consumo. Como o prêmio passa a ser menor as pessoas preferem consumir a poupar, o que reduz o valor de poupança.

Com a redução da poupança há uma redução da capacidade de investimento, o que reduz a produtividade e trava o crescimento tecnológico.

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Robinson Crusoé que está preso numa ilha usa sua vara de pescar e assim pesca e consome três peixes por dia. Ele resolve economizar e passa a consumir apenas dois peixes ao dia, porém continua pescando três. Ao final de dois dias, Crusoé consumiu quatro peixes e pescou seis. Como está consumindo apenas dois peixes por dia pode se dar ao luxo de ficar um dia sem pescar. Ele opta por não pescar, será sustentado pela economia realizada, e criar um mecanismo mais eficiente para a pesca, mecanismo este que o permite pescar ao invés de três peixes diários cinco. Uma rede de pesca (analogia de Ubiratan J. Iorio, professor da UERJ).

A economia que Crusoé fez ao consumir menos e poupar, o permitiu investir e criar uma nova tecnologia que o faz ser mais produtivo.

A poupança gera crescimento econômico, pois permite investimentos em novas tecnologias que aumentam a produtividade da indústria e geram novos produtos. A poupança ainda permite ao trabalhador trabalhar menos e estudar mais, o que o tornará um profissional mais eficiente e consequentemente será mais bem remunerado por isto. A poupança ainda permite o cidadão fazer melhores escolhas, com menos ênfase no consumo imediato, podendo lucrar duplamente, triplamente… no futuro, pois adiou o consumo.

A injeção de dinheiro fiduciário e a redução dos juros artificialmente em nada contribuem para o crescimento sustentável e a geração de empregos com base em riquezas produzidas.

Gera sim um aumento no número de vagas de trabalho e consequente diminuição do desemprego. Mas apenas momentaneamente e de apenas trabalhadores braçais, que serão sempre escravizados e receberão salários de fome.

O crédito farto ainda contribui para a inflação (no sentido entendido pelo mainstream econômico), pois eleva de maneira imediata a demanda, e esta não é acompanhada pela oferta. A oferta precisa de tempo para maturar, pois investimentos em capitais de produção (máquinas, por exemplo) leva tempo para gerar produtos finais, mas o consumo é imediato, o que eleva o preço dos produtos disponíveis.

Conclusão

A redução do juro que teoricamente beneficiaria o consumidor de baixa renda não chega a ele. O emprego gerado pela uma maior demanda de produtos finais é emprego braçal e não intelectual o que não proporciona crescimento sustentável. O crédito sem lastro em poupança gera inflação.

Ainda a demanda proporcionada pelo crédito artificial altera as preferências de consumo, o que prejudica alguns e favorece a outros, mas sobre isto eu já tratei neste artigo.

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Jônatas Rodrigues da Silva

Administrador na Universidade Federal de São Carlos e professor do Estado de São Paulo no Centro Paula Souza. Autor do livro Método para a Educação Financeira: da Sensibilização à Ação.

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