25 de junho de 2019

O brasileiro, o crédito e a importância da educação financeira

No último ano blogs sobre educação financeira e investimentos se multiplicarem de maneira exponencial. O crescimento vertiginoso fez com que não seja mais possível acompanhar a todos. Particularmente sempre gosto de fazer uma leitura e mesmo buscar inspiração nos textos dos colegas blogueiros, mas tem sido tarefa impossível passar por todos eles.

Também a preocupação e interesse das famílias em como controlar as finanças vêm aumentando. Até mesmo as grandes mídias tem divulgado o crescimento do endividamento das famílias, o aumento do número de brasileiros que usam o cartão de crédito e o consequente aumento do número de inadimplentes pelo mau uso deste cartão. Muitos compram por impulso sem saberem de fato como irão quitar a fatura.

Apesar de os juros como um todo terem caído; tanto pela diminuição da nossa taxa de juros, como pela força política da presidente Dilma; o praticado no crédito é, ainda, abusivo, em média 10% ao mês. É o juro mais caro, nenhuma outra forma de crédito é tão onerosa ao bolso.

Deixar de pagar a fatura integral postergando o pagamento não é a escolha sensata.

O cartão de crédito quando bem usado é um grande aliado do controle orçamentário. Sua fatura é um espécie de raio x dos gastos. Nela está anotado o que foi comprado, quando, por qual preço e em quantas vezes. Concentrar os pagamentos no cartão é visualizar na fatura seu fluxo de caixa.

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O problema em seu uso não é técnico e sim comportamental. Tecnicamente falando, ele apresenta vantagens para clientes, estabelecimentos comerciais e operadoras. A relação é de simbiose onde todos saem ganhando. Nós clientes evitamos andar com dinheiro e assim sermos assaltados; as lojas podem vender em vezes e com menor risco de calote, e as operadoras ganham porcentagens em cada venda realizada.

O problema é comportamental, a falta de educação financeira do brasileiro o leva a comprar sem planejamento, sem uma análise precisa de sua capacidade de pagamento. “Passar” o cartão e comprar é fácil, o difícil é pagar a dívida.

O marketing agressivo ainda desperta o desejo por produtos que são totalmente desnecessários. Vitrines são meticulosamente preparadas para induzir o consumidor a comprar. Vendedores são treinados para aguçar o desejo de possuir do cliente. Tudo é pensado para lhe fazer gastar. Somente ao tomar ciência desta verdade você já fica menos vulnerável ao apelo agressivo. Sempre que visualizar uma loja magnífica, lembre-se que ela foi estrategicamente preparada para lhe causar esta sensação de vislumbre e fazê-lo comprar.

De forma nenhuma quero condenar as estratégias mercadológicas, até mesmo porque leciono e ensino alunos a vender, a divulgar um produto ou uma marca. Minha intenção é sensibilizar a você que está lendo este texto, que pelo máximo que existam técnicas com a intenção de fazer você consumir, a decisão final é sempre sua. Só compre o que for necessário e quando tiver equacionado seu pagamento. De preferência, compre sempre à vista. Supérfluo, só deve ser comprado à vista.

Duas medidas simples ajudam você a manter seu orçamento em dia: ter um fluxo de caixa, ou seja, anotar as receitas e ir subtraindo as despesas de forma a ter ciência de como anda sua saúde financeira e; manter uma reserva de emergências para eventuais necessidades.

Estas duas práticas evitariam muitos aborrecimentos. O estresse causado por ter contraído uma dívida e não saber como irá liquidá-la, não deixa qualquer cidadão honesto ter uma noite de sono tranquila. E esta intranquilidade irá trazer malefícios em todas as áreas da vida. É no trabalho, na relação com o cônjuge e filhos. A autoestima e o libido sexual diminuem. Tudo perde a graça.

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Recentes pesquisas mostram que quanto menor a educação formal do individuo menor sua propensão em pesquisar pelo menor juro praticado. Isto quer dizer que quanto menos esclarecido mais facilmente se é ludibriado pelo apelo do crédito fácil. Bancos financeiros tem usado artilharia pesada vinculando propagandas incentivando a realização de sonhos através de empréstimos consignados. Sonhos se realizam com economia, investimento e compra à vista. O fácil acesso ao crédito só leva a um maior endividamento.

Estamos a poucos dias de mais uma votação, desta vez para eleger prefeito e vereadores. Sinceramente me dá medo ao assistir o horário eleitoral. Mais da metade dos candidatos não sabem nem mesmo falar, são analfabetos funcionais. Mas veem uma chance de se elegerem, não pela competência, mas por ser um rosto conhecido. Isto porque votamos em rostos conhecidos e não em propostas concretas. Mas isto seria assunto para outro texto.

Comecei falando do número crescente de blogs sobre o tema finanças. Um leitor iniciante pode ficar confuso com tantas estratégias, algumas antagônicas, defendidas pelos escritores. Realmente, é para deixar qualquer um maluco. Mas, sinceramente a estratégia é o menos importante, a grande maioria dos brasileiros ainda está numa fase inicial, numa fase em que todos os escritores, sejam de livros ou de blogs, concordam: primeiramente é preciso controlar de forma precisa receitas e despesas, e assim gastar menos do que se ganha. Depois se faz necessário poupar e formar uma reserva para emergências, para depois sim passar a investir.

Passe verdadeiramente a se preocupar com estratégias de investimentos apenas quando você já for senhor de suas finanças, quando você puder olhar para o dinheiro, plagiando o poema de Vitor Hugo, e dizer a ele quem é o dono de quem. Antes disso, estratégias não tem importância alguma, pois só farão sentido quanto você estiver no controle.

Boa semana!


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Jônatas Rodrigues da Silva

Administrador na Universidade Federal de São Carlos e professor do Estado de São Paulo no Centro Paula Souza. Autor do livro Método para a Educação Financeira: da Sensibilização à Ação.

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