Por que vendemos na queda e compramos na alta, se o óbvio é o contrário?

Todo mundo sabe que deveria comprar barato e vender caro, mas faz o oposto. A história de Peter Lynch e de pessoas comuns mostra o custo disso.

Rafael Andrade · 6 min de leitura
Por que vendemos na queda e compramos na alta, se o óbvio é o contrário?

Pergunte a qualquer pessoa qual é a regra mais básica para ganhar dinheiro com ações e a resposta virá na hora: comprar barato e vender caro. É tão óbvio que parece até bobo repetir.

E, no entanto, ano após ano, crise após crise, os números mostram o mesmo comportamento: quando a bolsa despenca, os investidores correm para vender. Quando ela dispara e todo mundo está falando de ações no almoço de domingo, eles correm para comprar. Exatamente o contrário do que sabem que deveriam fazer.

Se a regra é tão simples, por que é tão difícil segui-la?

O fundo que rendeu 29% ao ano e os cotistas que perderam dinheiro

Peter Lynch é um dos gestores mais celebrados da história. Entre 1977 e 1990, ele comandou o fundo Magellan, da Fidelity, e entregou uma rentabilidade média de cerca de 29% ao ano, quase o dobro do índice S&P 500 no período. Quem colocou dinheiro no início e simplesmente deixou lá terminou com um patrimônio dezenas de vezes maior.

Mas há um detalhe nessa história, contado e recontado no mercado há décadas: um levantamento atribuído à Fidelity indicou que a maioria dos cotistas do Magellan teria ganhado muito menos que o fundo, e uma boa parte teria até perdido dinheiro.

Como isso é possível? Pelo comportamento. Quando o fundo tinha um ano ruim, muitos cotistas resgatavam, assustados. Depois de uma sequência de anos excelentes, com o Magellan nas manchetes, o dinheiro novo chegava em massa, perto do topo. Ou seja: as pessoas entravam caro e saíam barato. O gestor fazia a parte dele; o investidor desfazia.

O desempenho de um investimento e o desempenho de quem investe nele são coisas diferentes. A distância entre os dois é, quase sempre, o preço do medo e da euforia.

Por que fazemos o contrário do óbvio

A resposta não está na planilha, está na cabeça. Alguns mecanismos explicam boa parte do problema:

  • A dor da perda pesa mais que a alegria do ganho. Estudos de finanças comportamentais mostram que perder R$ 1.000 dói muito mais do que ganhar R$ 1.000 alegra. Na queda, vender parece a forma de fazer a dor parar.
  • Seguimos a manada. Quando todos estão vendendo e o noticiário só fala em crise, ficar parado parece irresponsável. Quando todos estão ganhando, ficar de fora parece burrice.
  • Damos peso demais ao que aconteceu agora. Depois de meses de alta, a impressão é de que vai subir para sempre. Depois de semanas de queda, parece que nunca mais vai se recuperar.
  • Confundimos preço com valor. Uma ação que caiu 30% não ficou necessariamente pior; muitas vezes ficou apenas mais barata. Mas o número vermelho na tela fala mais alto que a análise.
  • Queremos agir. Fazer alguma coisa dá sensação de controle. Não fazer nada, que muitas vezes é a melhor decisão, parece passividade.

O resultado aparece nas pesquisas sobre comportamento do investidor feitas há décadas nos Estados Unidos: o investidor médio ganha consistentemente menos que os próprios fundos e índices em que investe, justamente porque entra e sai na hora errada.

As pessoas comuns que venceram os profissionais

Se o problema é o comportamento, a solução pode ser surpreendentemente simples. Algumas histórias reais mostram isso melhor que qualquer teoria.

Ronald Read, o frentista que deixou US$ 8 milhões

Ronald Read trabalhou a vida inteira como frentista e depois como zelador em uma pequena cidade de Vermont, nos Estados Unidos. Vivia de forma simples, dirigia um carro usado e ninguém imaginava que fosse rico. Quando morreu, em 2014, aos 92 anos, deixou um patrimônio de cerca de US$ 8 milhões, boa parte doada para o hospital e a biblioteca da cidade.

A estratégia dele? Comprar ações de empresas sólidas e conhecidas, reinvestir os dividendos e não vender. Por décadas.

Grace Groner, a secretária das três ações

Grace Groner foi secretária na farmacêutica Abbott durante toda a carreira. Em 1935, comprou três ações da empresa por US$ 60 cada, US$ 180 no total. Nunca vendeu. Reinvestiu os dividendos e deixou o tempo trabalhar. Quando morreu, em 2010, aquelas três ações tinham se multiplicado e valiam cerca de US$ 7 milhões, doados à faculdade onde ela estudou.

Anne Scheiber, a auditora esquecida pelos chefes

Anne Scheiber trabalhou como auditora da Receita Federal americana e se aposentou sem nunca ter sido promovida. Com cerca de US$ 5 mil, começou a comprar ações de empresas que conhecia e nunca mais parou. Não vendia nas crises, reinvestia os dividendos e vivia com pouco. Ao morrer, em 1995, aos 101 anos, tinha cerca de US$ 22 milhões, doados a uma universidade para bolsas de estudo de mulheres.

E os profissionais?

Enquanto isso, os relatórios SPIVA, da S&P, mostram há anos que a grande maioria dos fundos de ações geridos ativamente, nos Estados Unidos e também no Brasil, rende menos que o índice de referência em períodos de 10 ou 15 anos. Gente com formação, equipe de análise e informação em tempo real, perdendo para uma estratégia que uma secretária de 1935 conseguia seguir.

Nenhum desses investidores comuns era mais inteligente que os profissionais. Eles tinham outra vantagem: paciência, custo baixo e a ausência de pressa para provar alguma coisa a cada trimestre.

O que dá para aprender com isso

Ninguém precisa repetir exatamente o que Ronald, Grace ou Anne fizeram. Comprar ações de uma única empresa e nunca olhar para trás também tem riscos: para cada história de sucesso, há empresas que quebraram no caminho. Mas a lição de comportamento vale para qualquer carteira:

  • Defina a estratégia antes da crise, não durante. Saiba por que comprou cada ativo e em quais condições venderia. Queda de preço, sozinha, não é motivo.
  • Diversifique. Uma carteira com vários ativos e setores aguenta melhor o tropeço de um deles e reduz a vontade de vender tudo no pânico.
  • Tenha uma reserva de emergência. Quem precisa do dinheiro durante a queda é obrigado a vender barato. Com a reserva separada, a carteira de longo prazo pode esperar.
  • Automatize os aportes. Investir todo mês, no mesmo dia, faz você comprar mais quando está barato sem precisar de coragem.
  • Olhe menos para a cotação. Quem confere a carteira todos os dias sente cada oscilação. Quem olha poucas vezes por ano enxerga a tendência.

Para aprofundar, veja a diferença entre buy and hold e trade e algumas estratégias de investimento de longo prazo.

Conclusão

Comprar na baixa e vender na alta é fácil de entender e difícil de fazer, porque as decisões são tomadas por pessoas, não por planilhas. A história do Magellan mostra que nem o melhor gestor do mundo protege o investidor dele mesmo. A de Ronald, Grace e Anne mostra que, às vezes, o maior talento de um investidor é não atrapalhar o próprio dinheiro.

Da próxima vez que a bolsa cair e a vontade de vender bater, vale fazer uma pergunta simples: o que mudou na empresa, ou só mudou o meu humor?

Este texto é informativo e não é recomendação de investimento.

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