23 de maio de 2019

A Importância do Fluxo de Caixa e porque as Empresas Falem

O fluxo de caixa (cash flow) é uma ferramenta gerencial que registra o fluxo de entrada e saída de recursos financeiros em um determinado período tempo. Ele pode ser semanal ou quinzenal, porém o mais comum é o controle mensal.

A finalidade de se controlar o fluxo do dinheiro é dar suporte ao gestor da organização na tomada de decisões, que se baseia em um banco de dados que lhe apresenta um histórico do fluxo financeiro ao longo do tempo.

O conceito de fluxo de caixa é simples, e o objetivo deste artigo é mostrar sua importância como ferramenta de suporte ao gestor, que alinhado ao conhecimento econômico e com vista ao cumprimento dos objetivos organizacionais, é capaz de gerenciar a organização com efetividade, sendo mais produtivo ao aproveitar oportunidades de mercado por ter caixa.

Regime de caixa e de competência

No regime de competência se realiza o registro financeiro na data geradora não levando em consideração a data da receita ou despesa efetiva. Por exemplo: se uma venda foi realiza hoje com recebimento em 90 dias, no regime de competência o fluxo de caixa irá fazer o registro na data de hoje. O problema é que ao se realizar uma venda a prazo não se tem a garantia do recebimento, este pode não ocorrer na data prevista e até mesmo não ocorrer.

O regime de caixa realiza os registros financeiros quando estes foram liquidados. Neste caso o fluxo de caixa mostra um retrato fiel da situação financeira da empresa, porém nem sempre seu registro está alinhado ao fato gerador, o que pode atrapalhar projeções e estimativas para a tomada de decisão de quanto e quando comprar e produzir, por exemplo. Uma receita registrada hoje pode estar refletindo uma venda à vista de hoje ou o recebimento de uma duplicada de uma venda de meses atrás.

Nada impede de uma organização manter dois fluxos de caixa, um em regime de caixa e outro de competência e assim ter duas visões do mesmo mapa para a tomada de decisões.

Controle orçamentário

Organizações podem dividir seu orçamento por departamentos, setores ou áreas funcionais. O setor de controle orçamentário é o responsável pelo gerenciamento do orçamento de cada um deles. Imagine uma empresa que fatie seu orçamento em porcentagens distintas entre os seus departamentos: marketing, recursos humanos, produção, pesquisa e desenvolvimento, etc. É possível, e mesmo desejável, um fluxo de caixa para cada um dos departamentos.

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Provisionamento

Provisionar nada mais é que reservar uma receita para um fim específico. O departamento de controle orçamentário com base na análise do fluxo de caixa do departamento de recursos humanos nos últimos anos pode indicar ao seu gerente que é necessário provisionar x reais da receita para cobrir despesas em processos trabalhistas.

Este é apenas um exemplo de como o fluxo de caixa pode ser uma importante ferramenta para a gestão empresarial.

Receita versus lucro

Uma grande receita não significa um grande lucro. Isto é meio óbvio, mas muitos confundem receita com lucro. Há empresas com receitas altíssimas que estão à beira da falência.

Custo marginal

O custo marginal é a soma dos custos fixos e variáveis. Alguns custos são facilmente identificados, outros não. É muito fácil quantificar a quantidade de parafusos usados na fabricação de um motor: basta somá-los. Porém, estabelecer a quantidade de água e energia elétrica é muito mais complexo.

O custo marginal, entre outros fatores, é usado para definir o preço de venda. Quando este apresenta erros em seu cálculo a empresa pode comercializar um produto ou serviço com margens não satisfatórias.

Um fluxo de caixa pode apresentar alta complexidade e registrar de forma detalhada o custo específico de cada unidade produzida, e assim o preço de venda de um produto ou serviço ser melhor precificado por conseguir se estabelecer um custo marginal mais preciso.

Fluxo de caixa livre

O fluxo de caixa livre nada mais é que o dinheiro que efetivamente a empresa possui em caixa, líquido, após deduzir os gastos provisionados e realizar o pagamento de impostos e encargos. A definição contábil é mais complexa, mas meu desejo não é pormenorizar a definição. Sendo objetivo, o fluxo de caixa livre é o dinheiro em caixa. Com dinheiro em caixa oportunidades de mercado podem ser aproveitadas. A empresa também pode usar seu fluxo de caixa livre para pagar dividendos aos acionistas.

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Pense numa empresa que importa componentes eletrônicos taxados em dólar. Seu custo de produção depende da cotação da moeda norte-americana. Hoje o dólar está apreciado frente ao real. No início do ano era o real que estava apreciado.

Esta empresa tendo caixa livre e com uma equipe gerencial competente poderia antecipar a subida do dólar, afinal era sabido que a economia do EUA começava a sair da recessão e o FED (banco central americano) iria subir o juro e, portanto, retirar (ou injetar menos) dólares do mercado; com isto, obviamente, o dólar iria se apreciar e países tupiniquins como o nosso ter a moeda depreciada. A empresa numa decisão estratégica poderia antecipar a compra de seus componentes taxados em dólar e ampliar seu estoque de matéria-prima, ou ainda fazer um contrato para entrega futura.

O que quero dizer através deste exemplo é que uma empresa com uma equipe gerencial competente e com caixa, e uma coisa está ligada à outra, pode antecipar-se a problemas macroeconômicos e ter vantagem competitiva.

Fluxo de caixa descontado

O fluxo de caixa descontado é um método de avaliação usado para estimar a atratividade de um negócio. Faz projeções de fluxo de caixa futuro e as traz para o valor presente. Através do método de fluxo de caixa descontado é possível precificar o valor de um ativo e dizer se ele está caro ou barato.

Aqui diversas variáveis macroeconômicas (dólar, Selic) e setoriais são levadas em consideração.

A decisão da empresa pode ser, por exemplo, comprar ou não comprar um terreno para a ampliação de suas instalações? Continuar alugando ou comprar um barracão? Para isto é fundamental ter um fluxo de caixa livre e com a ajuda do fluxo de caixa descontado avaliar o preço do ativo na data presente e definir se seu preço está alto, no preço ou descontado. Quando este último for o caso pode ser uma decisão a realização da compra.

Ainda é possível a tomada de decisão gerencial se, outro exemplo, vale a pena antecipar o pagamento com desconto de uma duplicada que vence em 12 meses e seu juro está atrelado à taxa básica de juros (Selic).

Perceba como o fluxo de caixa é uma ferramenta fundamental para a decisão gerencial. O conhecimento administrativo, econômico e contábil é fundamental para a sobrevivência de qualquer organização em um mercado tão competitivo.

Missão e objetivos organizacionais

Toda organização nasce para satisfazer uma carência do mercado. Gerar lucro é consequência, é o benefício ganho ao satisfazer o consumidor. Infelizmente muitos vêem o lucro como anátema quando ele deveria ser visto como virtude. Quanto mais uma organização gera lucro e cresce mais bem quista ela deveria ser aos nossos olhos, pois se ela gerou lucro é porque satisfez o mercado e isto é louvável.

Todo fluxo de caixa de uma empresa deve ser administrado pelo seu corpo gerencial em vista a cumprir os objetivos organizacionais que foram traçados com base na missão da organização.

De cada oito dez empresas vão à falência nos 5 primeiros anos de vida. O motivo é muito simples: não há administradores profissionais no gerenciamento da empresa (aqui não falo em profissionais necessariamente formados em administração, mas em profissionais com conhecimento em administração), elas nascem sem missão e objetivos claros; falta conhecimento econômico, e sem entender o mínimo de economia fica difícil planejar a organização para o futuro e, ainda seus donos só pensam no lucro quando deveriam o ter como consequência de uma satisfação ao mercado.

Uma boa semana!

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Jônatas Rodrigues da Silva

Administrador na Universidade Federal de São Carlos e professor do Estado de São Paulo no Centro Paula Souza. Autor do livro Método para a Educação Financeira: da Sensibilização à Ação.

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